Crianças “hiperativas”

“É hiperativo”. Esta é uma frase usada com frequência, para descrever uma criança cujo nível de agitação motora e de dispersão da atenção, ultrapassa o limiar de tolerância de pais e professores.

 

No passado Sábado, dia 6, foi transmitida na RTP 1 a reportagem “Cérebro meu”, no programa Linha da Frente. Focada no aumento do número de casos diagnosticados  com Perturbação de Hiperatividade e Defice de Atenção (PHDA), assim como na medicação que lhe serve de solução. É uma peça jornalística que merece ser vista com atenção, sobretudo pelas questões que coloca, e pela dificuldade em encontrar respostas claras.
O que sobressai na reportagem é a dificuldade em sustentar, clinicamente, um diagnóstico que em muitos casos, resulta na prescrição de medicamentos cujos efeitos a médio e longo prazo não são claros. Tal acontece porque, apesar dos diversos estudos, não foi encontrada uma raiz biológica, neurológica, ou genética, que permita sustentar de forma categórica um diagnóstico de PHDA.

No mesmo sentido, é necessário questionar criticamente os efeitos do metilfenidato. Se o corpo aquieta, o que dizer da possibilidade de habituação, e da necessidade de ir aumentando as doses? Esta não é de todo uma solução aceitável, sobretudo porque não contribui para o desenvolvimento da criança, ou da família.
Quer isto dizer que não existem “crianças hiperativas”?
Se a sustentabilidade científica para um diagnóstico de PHDA pode ser questionável, não poderão haver dúvidas de que existem crianças irrequietas, assim como famílias que sofrem por falta de contenção desta irrequietude. No entanto, esta irrequietude tem valor sintomático, pois assinala a dificuldade em pensar, ou seja, em elaborar e conter pensamentos, preocupações, angústias. Se a criança tem dificuldade em pensar, em expressar as suas preocupações, resta-lhe a via corporal, o movimento que, no limite, entretém, e permite a ausência de pensamento.
Estas são, regra geral, crianças enérgicas, curiosas, ávidas. É necessário saber conter essa curiosidade quando esta lhes é prejudicial, ou limitar o movimento quando este perde o sentido. Mas também é preciso ajudar as crianças irrequietas a transformar a irrequietude em palavras, para que consigam por fim, atribuir significados aos movimentos.